Cada lar desprovido de muros, exposto aos olhares alheios se despe de sua privacidade, revelando suas intimidades sob as pilhas de escombros. Preferências, manias, jeitos, segredos recalcados. Idiossincrasias que nos separam e nos unem, nos identificam, enquanto família, enquanto grupo social, enquanto seres humanos. Camadas sobre camadas se sobrepõem para trazer à tona um olhar crítico sobre nossa identidade e nosso tempo.
A instalação VESTÍGIOS que o artista visual Leandro de Araújo apresenta, aborda deslocamentos identitários que se originam a partir das vivências/embates, na concepção, na construção e na exibição da obra de arte  pelo artista e se movimentam à participação do espectador.
Ao instalar na sua totalidade os elementos físicos, as particularidades do espaço arquitetônico e os espectadores -  Leandro ressignifica os vestígios carregados de  estruturas que se entrelaçam para projetar subjetividades a partir das formas e dos conteúdos. Os Vestígios em si, e em suas metáforas, se transformam em recursos de apropriações e projeções dialético/sensoriais.  Direcionados também às discussões que nos atingem na contemporaneidade como indivíduos sociais. O campo ampliado definido por Rosalind Kraus que reverbera, também,  no deslocamento físico/geográfico e funcional dos elementos que estruturam a instalação. A capacidade de tornar tridimensional o invisível, como aponta o artista.
As combinações  no reconhecimento de objetos e imagens potencializam a irradiação de assimilações por parte dos espectadores. Objetos e registros que deambulam na memória e no confronto das vivências do artista e na imantação vivencial/referencial dos espectadores. Imagens digitais de demolições como novas construções, que como monumentos, homenageiam vidas e convívios. 
Leandro utiliza como suportes materiais construídos pelo homem para seu uso cotidiano, transformando a geometria e utilidade originais desses objetos, para construir novas formas e sentidos a partir do acoplamento desses elementos reconhecíveis nas suas funções primárias. Assim essas novas referências cartográficas do cotidiano se estruturam geométrica e pictoricamente, e então, representam em seu conjunto uma singular arquitetura articulada, tridimensional e sensorialmente, às conexões do Homem com seu contexto.
Corroboramos assim o depoimento dado pelo  artista para exposição ARtérias na ceRÂmica  realizada na Andréa Arte Contemporânea em São Paulo  e que 
O vislumbre da condição humana me provoca, no que tange ao seu constante atrito com as intempéries externas e internas. Essa peleja se desenrola dentro do Tempo; ora palco, ora o próprio protagonista do enredo, que toma forma através da fotografia, cerâmica e gravura em minha obra. 

Assim essa arqueologia doméstica é estruturada em camadas cartográficas, que fonética e gramaticalmente se alterna em significados e aproximações vivenciais. Das frustrações e das angústias  à  construção de auto retratos; da simulação referencial à assimilação sensorial, dos vestígios de uma época definida às novas aproximações espaciais, da literalidade vivencial à subjetivação (inserida nos títulos  das obras por exemplo),  das intimidades desvendadas aos instigantes percursos nelas, das memórias condensadas no tempo aos encontros expandidos e sugeridos na dicotomia das ensamblagens e tensionamentos formais, espaciais e conceituais, articuladas pelo artista  na instalação.
As obras contemporâneas são voláteis, efêmeras, absorvem e constroem o espaço à sua volta, ao mesmo tempo, que o desconstrói. A desconstrução de espaços, de conceitos e de ideias está dentro das práxis artísticas da qual a Instalação se apropria para se afirmar enquanto obra. Dessa maneira Vestígios  se insere nesses discursos e na expansão das pertinentes discussões contemporâneas na arte, sobre a emancipação da produção cultural e de suas modalidades artísticas, abarcando a outros setores da artes, com a dança, a música, a moda, a fotografia, a pintura, o teatro, a escultura, a literatura, a performance, os happenings, a videoarte, a instauração, dos procedimentos cerâmicos,  etc. . As combinações com várias linguagens, fazem com que o público se surpreenda e participe da obra de forma mais ativa, pois ele é o objeto último da própria obra, sem a presença do qual a mesma não existiria em sua plenitude.
Assim, as imagens digitais, o som  e os objetos expostos num conjunto único formam uma colagem espacial, uma atmosfera tridimensional onde a presença do espectador se faz imprescindível. Os procedimentos de construção utilizados pelo artista nos remetem aos recursos usados por Duchamp para ressignificar o modo de pensar o novo espaço que ocupa o objeto e este no espaço arquitetônico com o espectador. E como define o próprio Duchamp  “uma transferência do artista para o espectador na forma de uma osmose estética que acontece através de certas matérias inertes, como pigmento, piano ou mármore”. Tal pensamento nos leva à compreensão de que Duchamp não considerava o ato criador unicamente vinculado ao artista, mas conectado sobretudo a uma junção entre obra de arte e o participante que a observa, a decifra, a interpreta e a vivência, dando dessa maneira, uma contribuição ativa ao ato de criar. Pensamento e conceito que se verificam na proposta de Leandro.
Essencialmente, é a construção de uma verdade espacial em lugar e tempo determinado. É passageira, possui presença efêmera que se materializa de forma definitiva apenas na memória. O sentido de tempo, no caso da fruição estética da Instalação é o não-tempo, onde essa fruição se dá de forma imediata ao apreciar a obra in loco, mas permanece em sua fruição plena como recordação e/ou convicção. Esta participação ativa em relação à instalação faz com que sua fruição se dê de forma plena e arrebatadora, o que em muitos casos pode até mesmo tornar esta experiência incômoda e perturbadora.
A necessidade de mexer com os sentidos do público, de instigá-lo, quase obrigá-lo, a experimentar sensações, sejam agradáveis ou incômodas, faz da Vestígios  um espelho de nosso tempo. 

PhD Andrés I. M. Hernández
Curador
São Paulo verão 2023


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